Por Taiguara
No dia 23 de janeiro do presente ano, seis centrais sindicais – entre elas CUT e Força Sindical – foram advertidas pelo Ministério Público do Trabalho de São Paulo para que, em respeito às leis trabalhistas vigentes, moderassem nas concessões de direitos que têm feito em nome dos trabalhadores.
Ante o efeito alardeador gerado pela famigerada crise financeira no capitalismo, o empresariado, supostamente em troca da promessa de manter o número de postos de trabalho, tem se sentido à vontade para exigir acordos coletivos que reduzam a jornada, com a justa diminuição dos salários, é claro. E, as negociações, por seu turno, contam não só com a adesão, mas com o estímulo de boa parte dos dirigentes das entidades. O discurso utilizado é simples e convincente, como ouvi dizer, dia desses, em um jornal televisivo: “Melhor pingar do que secar”.
A trama poderia ser considerada absurda se não fosse uma prática tão corriqueira no meio sindical brasileiro dos últimos anos. Isto é, não é raro que o Estado tenha de intervir na relação entre a entidade representativa e os seus associados para impedir que o primeiro consinta excessivamente com a perda de direitos e benefícios dos segundos, além do limite que é permitido por lei. Nesta inversão de papéis, é o Estado neoliberal que precisa frear os impulsos flexibilizantes dos representantes oficiais das causas trabalhistas.
Chegamos a um ponto em que um dirigente sindical vinculado à CUT, no Rio Grande do Sul, por exemplo, comemora ter negociado – em “reunião secreta” – um ótimo abatimento de 14,6% dos salários, quando a empresa exigia o absurdo de 22%!
Um processo bem parecido, ainda que num contexto bem mais particular e pontual, ocorreu-me nesta semana. Enquanto aguardava os minutos que antecediam minha primeira aula do ano, via a coordenadora e proprietária do colégio privado em que trabalho quebrar a cabeça preparando a grade de horários que haveria de ser definitiva para 2009. Ela aproveita que eu estou por ali e me alerta da probabilidade de haver inconvenientes “janelas” em meus dias de trabalho.
As “janelas” são os intervalos vagos entre uma e outra aula, mas que o professor não pode ir embora, pois não lhe vale a pena, já que terá de voltar em breve. Então ele fica lá, sem aulas, na sala dos professores, esperando sua próxima entrada.
Pois bem. Ela me diz que conversou por telefone com o meu (?) sindicato, o qual lhe havia informado da obrigatoriedade de serem remuneradas estas janelas. O que me parece muito justo, uma vez que o professor, nesse ínterim, não é o dono de seu tempo, ficando a disposição da empresa que o contratou.
No entanto, neste mesmo bate-papo amistoso, a entidade que me representa aconselhou minha patroa a tentar um acordo comigo. E qual era esse acordo? Simples também: que eu abrisse mão do pagamento dessas horas “ociosas”. O que ela me sugeriu, explicando das dificuldades financeiras pela qual passa o colégio…
Eu mal havia sido agraciado pela notícia de que essas malditas janelas me seriam recompensadas e já era prevenido de que não as receberia, pois o sindicato havia proposto e negociado a renúncia de um direito meu, ser remunerado pelas minhas horas de trabalho. Belo acordo eles me arrumaram: eu entrava com a bunda, e a escola com o pé.
Bateu o sinal, eu precisava entrar para a aula, mas deu tempo para ela dizer: “Professor, pensa nessa proposta e depois me fala… se não, vamos precisar contratar outro professor para dar uma de suas matérias”.
Sem poder me defrontar sozinho contra o problema – já que meus colegas eu pouco encontro, e com o sindicato, já viu, né? – lembrei-me da frase a que me referi acima, e que tende a se tornar uma máxima em tempos de crise e fragmentação: “Melhor pingar do que secar.”
1 Comentário
Janeiro 30, 2009 às 10:54 am
Esse posicionametno dos sindicatos no Brasil é geral. Lembro-me que quando da greve dos agentes penitenciários, em que havia muitos agentes que defendiam o abandono dos presídios, ou seja, a ausência total, os diretores levavam os “homens do sindicato” para explicar que não era daquele jeito a paralisação, que se deveriam parar somente alguns serviços e etc. Fator interessante foi perceber que os agentes, ao paralisarem, deixavam de obedecer ao Diretor Geral e passavam a estar submetidos ao sindicato.