Janeiro 21, 2009...12:46 pm

Sociedade escravista em tempos de não escravidão

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bonecasPor Camila Peruchi

O mundo globalizado e moderno no qual passamos a viver nos coloca de frente ao consumo exagerado e à exploração assídua dos meios de comunicação como forma de alienar os possíveis e futuros consumidores de determinado produto. Em uma época mais simples, a publicidade meramente chamava a atenção para o produto e exaltava suas vantagens, não havia ainda, necessidade para tanto.

Porém, hoje em dia, fez-se do próprio consumidor um produto a ser vendido, onde a estratégia de venda consiste em torná-lo frustrado, entediado, insatisfeito e ansioso. O objetivo é colocá-lo forçadamente numa redoma de vidro na qual ele mesmo se reflita de forma totalmente insignificante, sentindo uma falta imensa de algo, de modo que pense que a única forma de supri-la é consumir. Só se será alguém se houver entrega aos delírios dos logotipos, preços altíssimos, e símbolos. Logotipos e símbolos, os quais só ficarão bem em você se você for magérrimo e alto, e, se por sorte fantástica da genética, tiver os olhos claros, a combinação será perfeita.

É a ditadura da beleza que nos impõe uma vida totalmente escravista, para então nos jogar bruscamente contra um muro de concreto onde há inúmeros produtos que (ó sim, milagrosamente) farão com que nos enquadremos a esses padrões de beleza, e estereótipo esquelético de face funda. E incrivelmente, todos fingem não se importarem com o sangue que se escorre devido ao baque, e o sangue coagula-se de esquecido, e passa-se a ser habitual ver meninas forçando-se a vomitar, passando horas sem comer, e pesando 29 Kg aos 23 anos. Como bonecas “Susie” elas desfilam como exemplos de beleza e saúde em prol das criancinhas de rua que (por azar do destino) passam fome.

É a sutil ironia que a sociedade vedada e amortecida pela mídia não enxerga e não sente. Agora, além de exemplos de beleza são também visões prefiguradas que nem santos e anjos imaginaram, tão bondoso e repletos de compaixão são seus caráteres. De agora em diante, a caridade se associa aos decibéis, o humanitarismo ao showbiz. Não existem mais causas nobres sem a presença de popstars. Essa mesma mídia que nos arremessa contra o muro dilacerando nossa verdadeira identidade, parece ainda assim, não estar contente com os hematomas.

É necessário ainda nos apresentar a comunicação em massa, que nos prega, como em crucifixos, a uma distância imensa um do outro, nos privando do contato físico, dos olhos nos olhos, da face a face. Famílias restringem sua forma de comunicação a telefonemas, e-mails, e salas de bate-papo via internet, rareando cada vez mais o convívio social, o almoço aos domingos, o abraço amigo.

O fato é que nos tornamos robôs programados para consumir compulsivamente, na busca incessante da moda e da beleza; destruindo nossa sensibilidade, atando nossas mãos em uma sociedade onde ser “humano” está cada vez mais raro. Isto já era previsível em uma sociedade onde se vende cor de olhos, vende-se o tipo de cabelo, vende-se o conserto do nariz arrebitado herdado como pura maldição do destino da mãe, vende-se a bolsa Gucci e os óculos Empório Armani para ir a desfiles beneficentes, vendem-se exemplos de imagem e perfeição…

Era realmente previsível, em uma sociedade em que só não se vende a alma, ou porque ainda não se sabe o e-amail do diabo ou porque nos criaram ainda a figura de um deus: uma abstrata e falsa espécie de última esperança, que nos prende a uma incansável espera de uma “intervenção divina” enquanto nos mantemos incapazes de intercedermos por nós mesmos.

2 Comentários

  • Conhecido com um dos países que mais realizam cirurgias plásticas no mundo, o Brasil registrou 1.252 operações estéticas por dia entre setembro de 2007 e agosto de 2008. Ou seja, foram 457 mil cirurgias desse tipo no período. Somadas aos procedimentos reparadores – normalmente feitos em pacientes após uma grave doença ou vítimas de violência – foram 629 mil operações. Os dados são de uma pesquisa da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), encomendada ao Instituto Datafolha e divulgada ontem. Em 2004, segundo outra pesquisa da sociedade, foram 617 mil cirurgias no total.

    O levantamento revela também que, pela primeira vez, os implantes de silicone (96 mil) ultrapassaram as lipoaspirações (91 mil), até então a preferida dos brasileiros. As mulheres foram as que mais procuraram os procedimentos estéticos: 402 mil, contra 55 mil homens. Para se ter ideia da magnitude desses números, em todo o ano passado, foram feitos 116.821 procedimentos cardiovasculares no País, segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular e do DataSUS.

    Os resultados da pesquisa são bem recebidos pelo presidente da SBCP, José Yoshikazu Tariki, mas faz uma ressalva: a qualidade dos médicos atuando como cirurgiões plásticos. “Algumas especialidades são tão específicas que só deveriam ter profissionais capacitados atuando”, afirma. A preocupação de Tariki tem fundamento. A legislação brasileira permite que o médico exerça qualquer especialidade, mesmo que não tenha o título de especialista na área.

    Denúncias

    O reflexo para a cirurgia plástica pode ser medido por uma pesquisa do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp). Entre 2001 e 2008, de acordo com dados do conselho, 97% dos médicos denunciados ao órgão por erros ou imperícia durante a realização de cirurgias plásticas não tinham o título de especialização na área. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

  • É MUITO ENTERESANTE


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