A Esquerda Atual e a Educação – Nota Sobre uma Ausência

Uma escola brasileira

 Por Ronan

                   De início, é de conhecimento ou deveria ser que os dois grandes partidos brasileiros – PT e PSDB – não possuem diferenças quanto às politicas atuais em educação. Seguindo práticas correntes em países subdesenvolvidos, ao mesmo tempo em que mantêm um baixo investimento, procuram aumentar a produtividade do processo educativo. Mesmo assim, os mil e setecentos reais anuais que o Brasil investe em educação básica são somente metade do investimento efetuado pelo Chile. Foco e auxílio na gestão, tem-se a introdução de avaliações sobre o sistema – gestores, alunos e professores, criação de currículos básicos, estipulação de metas, combate ao absenteísmo, bonificação por resultados, programas de requalificação docente, produção de materiais didáticos, aprovação automática, centralidade em português, matemática e ciências, manutenção de um contingente enorme de professores não efetivos.

Vivemos um momento de significativas mudanças no fazer educativo em que espanta a ausência de interlocutores e posicionamento provenientes de setores não comprometidos com o atual estado de coisas. Jornalistas, intelectuais, parlamentares, imprensa, empresários, igreja, movimentos e ongs ligadas ao poder tem travado entre sí o debate que pauta as ações governamentais. Quem desejar simplesmente se informar sobre educação na atualidade há de recorrer a publicações como Nova Escola, Pátio Pedagógico, Educação, grandes jornais e sites governamentais e congêneres. Uma posição crítica mais embasada absolutamente sumiu do mapa.

Propostas alternativas de educação tem sido tocadas por alguns movimentos sociais, heróicas ongs, e pela milharidade de cursinhos populares. Todos, mesmo em conjunto, de pequeno impacto diante das milhares escolas do país. As minorias ativas, embora obtenham alguns êxitos, jamais alcançaram, por exemplo, a latitude das lutas estudantis na universidade, responsáveis pela criação de um sistema de inclusão social e pelo abrandamento de arbitrariedades várias, que podem incluir até mesmo a exploração de trabalho não pago dos alunos. Nesse contexto, é muito importante o que tem feito o professorado do ensino público.

Este, no entanto, tem se dividido entre a imersão numa perspectiva mercadológica e individualista de vida e o apoio coletivo e passivo a burocracias sindicais que procuram usar a insatisfação e a luta dos professores para a ascensão social, mediante o controle da estrutura sindical e/ou a carreira política. Assim, as críticas ao processo educativo foram, majoritariamente, reduzidas à denúncia do parco investimento,uma simples questão quantitativa, e esse mais praticamente identificado ao patamar salarial do professorado. Os departamentos de recursos humanos das secretarias tem sido hábeis em cooptar o prioritário anseio econômico do professorado e, mediante as bonificações de fim de ano, têm conseguido esvaziar os desfiles sindicais. O sindicato tem diversificado as possibilidades de ganho material para o professorado e surge, prioritariamente, como origem de convênios, descontos comerciais, colônias de férias e empresa jurídica. Numa linha politizadora restaram somente algumas poucas subsedes sindicais, geralmente votadas ao ostracismo.

Tal como tem apontado as práticas críticas em educação, um projeto alternativo passa pela criação de uma educação voltada para a luta social e esta requer o comprometimento social e a qualificação técnica e política do professorado. Há a necessidade de instrução dos movimentos sociais e de politização da escola. De saltar reclames meramente quantitativos para o surgimento de um professorado propositivo, capaz de apontar, da educação que temos, a educação que queremos. Nesse caso, parece que tudo está por fazer, dado o completo alheamento do professorado das questões sociais e educacionais. Um posicionamento crítico diante da educação requer um engajamento e uma tomada de responsabilidade diante da educação, inclusive, discernindo o que é salutar naquilo que tem sido feito pelo governo e construindo alternativas para o que não é. Sucintamente, o descontentamento diante da gestão governamental não pode servir de apoio a professores que, num ideário elitista, tratam com desprezo o futuro educacional dos populares, ao passo que matriculam seus filhos nos colégios privados. Do mesmo modo, a politização da escola não pode levar ao abandono dos conteúdos. De um lado ou de outro, uma melhor instrução tem que ser o alicerce para qualquer projeto educacional. Somente partindo de um compromisso com a educação é que se pode alçar a sua politização. Trabalho de longo prazo, pois há poucos e fragmentados ante um mundo por fazer.

 

3 Comentários

Arquivado em Lutas e Mov. Sociais, Materiais de Aulas, Má Educação

3 respostas para A Esquerda Atual e a Educação – Nota Sobre uma Ausência

  1. Guilherme Azevedo

    Acaba de ganhar mais um leitor. Li duas matérias ,até agora, e gostei bastante.

  2. Gostei bastante do texto e infelizmente tenho que concordar com ele em quase tudo. Uma sociedade calada, que não discute o mundo que quer, que não almeja transformar seu cotidiano só é digna de viver a vida como escrava da mercadoria.

    Mas contradizendo-me venho notando que em espaços reduzidos e claro, muito pouco notados, aparecem e se realizam perspectivas criticas de Educação e de Sociedade.

    Faço chegar a vocês um manifesto escrito pelo Grupo de Trabalho de Ensino e Formação da AGB e peço para que divulguem-no. A semente está lançada.

    RESULTADO DA DISCUSSÃO DO GT DE ENSINO E FORMAÇÃO NO XV ENG EM 2008

    INTRODUÇÃO:

    No início dos trabalhos do GT foi apresentada uma proposta de pauta que incluiu os itens:

    1- A Universidade mercantil e a OMC;
    2- O Acordo de Bolonha e sua repercussão na reforma do ensino superior brasileiro
    3. Educação à distância e a formação de professores: perspectivas e limites;
    4. A atual política para a educação básica no estado de SP e a realidade de outros estados;

    Na sequência, a proposta de pauta foi aprovada dando início às discussões, cuja síntese apresentamos:

    1. quanto à Formação de professores, nosso posicionamento é:

    – contra a banalização dessa formação na modalidade Educação à Distância, considerando que este processo tem se caracterizado por uma massificação e precarização da formação docente, fundada numa pseudo-modernização que tem a técnica como processo educativo em detrimento de uma formação cultural, científico e acadêmica. Trata-se de uma situação que se agrava, à medida que a educação vem sendo mercantilizada ajustando-se ao projeto do Estado neoliberal;

    – pelo comprometimento das Universidades públicas com a formação docente, considerando que essa formação vem sendo assumida por Instituições de Ensino Superior privadas de caráter mercantil-empresarial sem compromisso com essa formação;

    2. quanto à Reforma Universitária, o grupo entendeu que:

    – ela vem sendo implementada de maneira silenciosa, sem debate público, acionada por meio de Decretos, Resoluções e Editais, condicionados a recursos, fragmentando a categoria docente, de modo a corroer e subverter as possibilidades do trabalho coletivo. Como exemplo destacam-se o aligeiramento na formação, a formação contínua por meio das Empresas de Consultorias, o REUNI (através do qual a educação à distância vem sendo implementada), entre outros;

    3. no tocante às relações de trabalho docente destacou-se:

    - a precarização, a sua desprofissionalização a partir da assunção de funções não docentes no seu cotidiano; a desregulamentação dos contratos em todos os níveis da educação;

    4. no tocante à educação básica, considera-se grave a implementação de projetos centralizados com repercussões na escola, vulgarizando a dimensão pedagógica, retirando a possibilidade da autonomia, da criatividade e da crítica no âmbito do trabalho docente;

    O conjunto de questões amplamente discutidas remete para a necessidade da AGB, juntamente com outras entidades da sociedade civil constitua uma frente ampla pela abertura do debate público para a definição de uma agenda política em defesa da educação.

    Grupo de Trabalho de Ensino e Formação da Associação dos Geógrafos Brasileiros

  3. aproveito para avisar que este blog a partir de agora consta nos links do blog O Arroto.

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