Por Ronan
Quando iniciei conscientemente meu processo de instrução e participação política, aos dezessete anos, em 1997, embora não percebesse na época, portava um paradoxo: ao mesmo tempo em que nutria uma grande crença na mudança social e me dedicava com todo afinco em compensar aqueles anos de ignorância e apatia política pensava que os dias de grande agitação jamais ocorreriam em minha vida, eram coisa do passado ou de um futuro longínquo.
Eu possuía uma concepção romantizada da mudança social e essa concepção em muito se devia à tradição literária difundida, que, ainda hoje, se centra mais nos personagens que nos processos históricos, surgindo a história somente como um roteiro por onde desfilam os astros: Marx, Bakunin, Lênin. Também fruto do profundo elitismo e/ou idealismo da esquerda brasileira que apresenta uma concepção da luta na qual a instrução formal tem lugar chave, havendo papel destacado para intelectuais e iluminados. Pessoas ímpares, virtuosas e com instrução ímpar surgiam como o substrato ideal dos dias de mudança.
Embora toda confusão que os livros podem causar, aprendi a dar aos livros o que é dos livros e à vida o que é vivido. No decorrer desses 10 anos, passaram-me face a face a crítica social dos Racionais MC´s, associações de moradores, movimento punk, Comitê Zapatista, Sintusp, zines e a imprensa alternativa, o CEFAM de Franco da Rocha de 1997-1999, Movimento Humanista, as lutas estudantis dentro da universidade, a União Municipal dos Estudantes de Franco da Rocha, Educafro, MST, MTST, Ação Educativa, Cooperifa, CCS, Resistência Popular, o CELMA, PSTU, Oaxaca, Bolívia dos últimos anos…Embora a enorme permanência do velho mundo, parece ter havido uma erupção, que esfriando foi dando origem a novos elementos, agora componentes da paisagem.
Diante dessa infinidade de ações e acontecimentos, toda aquela concepção difundida da mudança social passou a cheirar furiosamente a convenção e a mofo (André Gide). Aprendi que, distante dos tronos, são as pessoas simples, as pessoas anônimas do cotidiano que compõem o motor da mudança ou a resistência para que as coisas não piorem. Sem idealismos, elas podem ser também muito dos problemas, da exploração e dos tiranos que se encontra pelo caminho. Elas podem resistir, mas também podem aceitar, podem compactuar.
Um posicionamento pela mudança social é uma atitude diante da vida que não se adquire por livros nem freqüentando certos meios. É uma indignação com a própria condição e/ou com a condição de outros. É uma ação, consciente ou não, para que o mundo seja menos desigual, menos injusto e parece não haver um livro de receitas, um manual de auto-ajuda para tal perspectiva, que impeça, por exemplo, os erros. Muitas vezes se pensa que os grandes dias e as grandes pessoas são somente coisas do passado ou de um futuro distante. No entanto, a alternativa e as pessoas que a vivificam moram ao lado ou é aquela pessoa que se vê quando se olha no espelho. Não há mais ninguém.

2 Comentários
Setembro 23, 2008 às 9:22 pm
Olá Ronan, gostei muito do seu texto. Acho que vc tem toda razão quando dessacraliza a teoria revolucionária…Afinal, tanto Marx, Bakunin e Lenin (pra ficar nos que vc citou) foram pensadores que não se circunscreveram aos limites dos cabinetes ou dos muros da academia, talvez por isso, mas não somente, foram pessoas que souberam traduzir os dilemas dos trabalhadores. Mas há um ponto que eu gosto na sua análise, a saber, aquele que menciona que “um posicionamento pela mudança social é um atitude diante da vida…”. Estou de acordo de que, no cotidiano, encontramos diuturnamente pessoas anônimas, simples que com seus próprios corpos, com suas vozes, com seus trabalhos, enfim, com as iniciativas de insubmissão e de indignação, são capazes de lançar bases da mudança social.
Por isso deixo aqui uma frase para nossa reflexão: “Contra a intolerância dos ricos, a intransigência dos pobres!”(Florestan Fernandes)
Grande abraço
Simone
Setembro 24, 2008 às 10:50 pm
“Mas é você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem…”
Abraços