Tá certo que a panfletagem no meio da rua já não era, há muito, uma maneira eficiente de transmitir uma certa informação ou, quem sabe, “ganhar a consciência” dos transeuntes. A profusão de imagens e sons, com manchetes de notícia ou de conteúdos publicitários, presentes no cotidiano de qualquer grande cidade, faz com que este monte de santinhos e folhetinhos não passe de mais uma coisa chata com que nos interpelam nas calçadas, e das quais queremos nos livrar o mais rápido possível.
Pois bem, desde o ano passado, a prefeitura de São Paulo vem implantando seu Projeto Cidade Limpa, o qual estabeleceu uma série de restrições à colocação de placas e painéis em vias públicas. Agora, mais recentemente, a Lei 14.517 vetou a distribuição de folhetos, panfletos e qualquer outro tipo de material impresso em ruas, parques e demais áreas da cidade consideradas públicas. Nenhuma objeção poderia ser feita se os efeitos dessas determinações incidissem apenas naquilo que anunciam seus objetivos expressos, a preocupação com o meio ambiente.
No entanto, estas medidas parecem-me muito mais significativas se nos atentarmos para outro conjunto de mudanças também em curso na metrópole. Quem anda pelas ruas de São Paulo provavelmente já observou que todo esse tradicional artifício de publicidade é impelido à ilegalidade ao mesmo tempo em que um outro, muito mais moderno e abrangente, é posto no seu lugar. A vigoração destas leis coincide com uma ampla instalação de estruturas substitutas que prometem ser um segmento muitíssimo próspero no mercado e que acarretará profundas alterações na paisagem de São Paulo, reparem.
Até pouco tempo, a existência de televisores era algo bastante comum em salas de espera, inclusive de hospitais públicos, lanchonetes, bares, e alguns outros recintos fechados. Agora, no entanto, a famosa “chupeta eletrônica” tende a fazer-se presente do mesmo modo nos ambientes abertos e em movimento, capturando o sujeito no seu fluxo. Primeira e experimentalmente, foram a linhas de metrô. A tecnologia digital viabilizou que as finíssimas telas de plasma fossem instaladas aos montes em quase todos os vagões da linha verde. Na seqüência disso, o mesmo tem acontecido com diversas linhas de ônibus.
Notem que anunciantes e empresas de transporte obtêm com isso uma enorme vantagem. Por um lado, o sistema obriga que o trabalhador assista, na íntegra e repetitivamente, aos informes publicitários de uma dada marca (recheados de curiosidades preciosas do tipo: sabe por que saem lágrimas dos olhos quando descascamos cebola?) durante todo o longo tempo que fica entalado no trânsito. E por outro, além de sujeitar os passageiros a este besteirol todo, as telinhas no sistema de transporte público da cidade distraem-nos justamente no momento em que seria propício ser suscitada uma séria reflexão acerca da precariedade e do alto custo do serviço prestado.
Nem as escadas rolantes ficarão de fora desta nova modalidade, visto que as entradas e saídas dos terminais de ônibus e metrô serão agora coloridas com painéis a serem utilizados para que as empresas explorem publicidade também nestes locais, como já o tem feito com os próprios bilhetes e catracas de embarque. [http://www.metro.sp.gov.br/empresa/negocios/teoportunidade.shtml].
Junte-se a isso, o grande número de pontos que os órgãos municipais, estaduais ou federais têm disponibilizado à propaganda de empresas que, “dotadas de elevado espírito comunitário”, retribuem a concessão enfeitando e fazendo a manutenção de áreas “públicas” outrora conservadas pelo Estado.São os seus slogans que assinam as mensagens em favor da preservação ambiental e do patrimônio da cidade, com se verifica em praças, parques, canteiros centrais de grandes avenidas, e até no portão principal da maior universidade pública do país.
Quem é, portanto, diretamente atingido por este aspecto do Projeto Cidade Limpa? Especialistas do setor acreditam que mesmo com a revogação desta lei, numa eventual gestão futura de uma chapa de oposição, a grande maioria destes anunciantes que migraram para as mídias eletrônicas on-line não retorne nunca mais para os veículos convencionais, como os velhos panfletinhos. [Instituto de Pesquisa Inter-meios: http://imasters.uol.com.br/noticia/8611/mercado/internet_cresce_devido_a_lei_cidade_limpa/]
A parte mais avançada dos capitalistas parece já ter se dado conta de que é no trajeto casa-trabalho casa, ou casa-escola-casa, que o paulistano passa boa parte do seu tempo e de onde poderia, por isso, surgir e ser manifesta uma insatisfação coletiva, como recentemente ocorrera na zona sul da capital
[http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u379709.shtml].
Eles perceberam que o trânsito é uma das maiores instituições dessa cidade e é, precisamente aí, durante o deslocamento do cidadão, que deve ser concentrado os esforços para uma eficiente formação ideológica. E isso as grandes empresas têm feito com meios de comunicação muito mais sofisticados.
Estes dados sugerem que a referida lei sobre os panfletos seja percebida com muito mais dureza pelos pequenos comerciantes, pequenos prestadores de serviços, manicures, missionários de igrejas evangélicas e outros setores que terão muito mais dificuldades para se adequarem às novas exigências. Os grandes terão os seus monopólios assegurados, pois a regulamentação só apareceu quando para eles já não haveria a menor diferença.
Como é recorrente no capitalismo, o benefício de poucos é transmitido como um bem comum. E, nesse sentido, o discurso ambiental tem se mostrado bastante útil e conveniente à prática e difusão de idéias do empresariado “limpo” de São Paulo.
Apesar disso tudo, no que concerne ao problema das formas de comunicação a serem adotadas pelos movimentos sociais, não se trata de reclamar a volta da panfletagem. Aquela porção de letras miúdas e espremidas num longo texto que quase sempre se encerra com uma conclamação – “Todos a algum lugar!” – parece não ser mais algo muito convidativo à atenção dos que passam.

3 Comentários
Julho 29, 2008 às 1:22 pm
Pois é Taiguara, boa reflexão.
A “esquerda” tem uma certa resistência a abandonar alguns elementos simbólicos tradicionais, não apenas materiais (como a panfletagem), mas também de linguagem, enquanto a “direita” se adapta (e re-cria) mais facilmente dentro desses recursos tecnológicos.
Mas é interessante percebemos como movimentos progressistas utilizam-se dessas ferramentas, o zapatismo é um campo muito fértil neste sentido, que consegue realizar de forma eficaz um “conflito midiático”, por e pela palavra. Também as manifestações altermundistas contra o G-8 dão exemplos dos germes possíveis de organização e construção de “outra” comunicação, que torna-se essencial em mais de um aspecto, não apenas para chamar a atenção e dar a conhecer seus propósitos, mas para uma participação mais efetiva e horizontal, tanto interna e diretamente, como externa e de maneira mediada.
Volto a insistir na questão do filme do Milton Santos, que também traz exemplos, ainda que mais simples, de como se apropriar dos avanços das ferramentas comunicacionais.
Julho 30, 2008 às 4:17 pm
Muito Bom texto!
Agosto 2, 2008 às 5:15 am
Alex,
Acabo de dar uma olhada na biografia que vc escreveu sobre o Subcomandante Marcos (Flor da Palavra) e ler com um pouco mais de cuidado o texto que eu mesmo recomendei do Leo Vinícius.
Lá ele questiona a atualidade e relevancia do mito da classe produtiva, como conceito capaz de abarcar os novos sujeitos que se fazem políticos numa comum insobordinação ao sistema do capital. Tal conceito teria servido eficientemente às necessidades de ação do século XIX, mas e hoje?
Ele faz esse questinamento por entender que estas discussões da economia política, tanto em Proudhon quanto em Marx, teriam sua razão de ser enquanto sanções científicas à práticas de lutas precedentes. Isto quer dizer que é o conceito que se segue a verificação empírica, e não o inverso; uma leitura pragmática. Não se trata de encontrar uma definição na teoria para depois tentar encontrá-la concretamente na sociedade e dizer: sim, é esta a classe revolucionária, é ela que cumpre tal função no modo de produção capitalista, a classe que produz valor segundo investigações teóricas…
Mas o que isso tem a ver com o papo da comunicação que vc comentou acima?
Ao ler o seu texto sobre o Sub. Marcos reparei como há nos Zapatistas a preocupação de refazer a pergunta mobilizadora: Qual é a auto-representação coletiva que estes novos grupos insurgentes fazem de si mesmos em relação ao capitalismo? Será que pensam-se enquanto pertencentes a uma classe que verdadeiramente produz valor, como estava no imaginário dos operários ingleses do sec. XIX. Não preciso ser especialista no assunto (como vc) para arriscar-me a dizer que, no caso dos indígenas de Chiapas, não.
Nessa matéria, parece-me bem sensato o que vc diz a respeito dos zapatistas esforçarem-se por criar um nova linguagem, uma que seja capaz de forjar um imaginário comum entre aqueles mais variados grupos que levantam-se em insubmissão ao sistema do capital: “um mundo onde caibam vários mundos”.
Quer dizer, a figura quase mítica do Marcos aparenta ser uma esforço nesse sentido, erigir uma sistema de representações, significações, abrangentes onde possam sentirem-se inseridos todos aqueles que de alguma forma antagonizam-se com o poder instituído, e que seja, por isso, capaz de mobilizá-los para um projeto comum.
Independente se entre nossas conversas intelectuais a gente continue dar centralidade ao conceito de classes sociais.
Todo esse processo de reconstrução de um campo de representações anti-capitalistas unificado marcaria a passagem de uma classe-em-si para uma classe-para-si, isto é, uma classe que fala a mesma língua.
Não sei se fui claro, era só pra fazer um comentariozinho e reiterar a indicação de leitura desse texto, que me suscitou estas idéias. Me empolguei…
Taiguara